II - A intocável
As pessoas costumam criar fantasias sobre as outras quando não as conhecem. Há alguns anos atrás me sentia estupidamente jovem e intocável. Não intocável no sentido literal, apenas sentia como se nunca realmente alguém chegasse a fundo em mim. Eu tinha um namorado. Amigas incríveis. Éramos tipicamente adolescentes, cheios de incertezas, metidos a imortais e com uma vontade louca de testar todos os limites. Jesse foi o meu primeiro caso mais sério. Eu o olhava e sentia um carinho enorme, mas não era amor, sempre soube. Ele também deveria saber, mas preferia se entregar para o que ele achava que era amor. Não preciso ser convencida para dizer que ele era totalmente apaixonado por mim, porque não sou do tipo de garota que finge que não sabe as coisas. Ele era. Totalmente entregue a minha fantasia adolescente. Ah! Se você quiser saber, ele superou isso naquela época mesmo e hoje ainda é meu melhor amigo. Mas vamos ao passado. Todo mundo um dia parte corações. E eu, infelizmente, não sou uma exceção.
- Como você se imagina quando tipo... Ficar adulta? - perguntou Jesse com aquele sorriso de menino encantador. Ele era uma completa gracinha. Ele tinha os olhos de sonhador. Tinha sede do mundo. Eu amava isso nele.
- Me imagino tipo... Adulta? - dou de ombros rindo da pergunta dele.
- Eu imagino, quer saber? - perguntou me abraçando pela cintura.
- O problema de todo mundo é que todos pensam demais no futuro e esquecem o presente - disse o olhando sentindo a brisa leve do grande parque em que estávamos
- Não estrague a coisa toda - ele disse mordendo meu nariz - Você é uma perfeita estraga prazeres, sabia? - os olhos dele sorriam junto com os lábios. E isso também era adorável. Olhos azuis como o oceano, mas não era um mar que me fazia ter vontade de nadar.
- Não sou. Estou preservando o momento - ri e ele continuou me olhando - Ok. Ok. Como você se imagina adulto? - perguntei rolando os olhos.
- Nós somos amigos de infância, igual nos filmes. Imagina como seria... - ele me olhou - estranho se a gente casasse - eu o fitei - Mas um estranho bom - disse ele finalizando.
- A gente não vai casar - ri e me sentei na grama. Não disse para magoa-lo, mas sabia muito bem que o fiz. Ele sentou ao meu lado e continuou conversando comigo normalmente, mas quando olhava pra ele de relance podia ver a decepção em seus olhos. Eu não sabia o que era amor, mas tinha alguma ideia. Eu sentia que era algo maior do que uma paixão adolescente. Jesse foi meu primeiro em tudo, ou melhor, em quase tudo, ele não foi o meu primeiro amor.
Eu lembro perfeitamente a primeira vez que Edward se dirigiu a mim. E digamos que não foi muito agradável. Foi num amigo oculto, toda vez no colégio quando estava próximo as férias fazíamos esse jogo. E quem teve a sorte de me tirar foi a melhor amiga do Edward, a Mary. Ela levantou, parou no meio da roda e começou a falar meio envergonhada, mas olhando diretamente em meus olhos.
- A pessoa que eu tirei é a pessoa mais exagerada e forçada que eu conheço. Tudo nela, desde as unhas vermelhas até os cabelos quase brancos de tão loiros soa exagero - disse finalizando seu discurso com um leve sorrisinho no rosto. A encarei por alguns instantes e quando ela disse meu nome levantei pra pegar meu presente. Era uma caixinha de música.
- Mary, muito obrigada pelo seu elogio - eu disse com o presente na mão - Adorei o presente. Eu não sabia que você falava, sabia? - uma chuva de risadas invadiu a sala - Fiquei surpresa que usou as suas primeiras palavras pra me elogiar. Prefiro ser muito do que não ser nada - sorri a ela e me sentei em meu lugar, ligando a caixinha de música. Eu sabia exatamente que ela choraria. As pessoas adoram se fazer de vitima. Mary era dessas, me odiava por algum motivo desconhecido e se sentia no direito de se sentir vitima da história toda. O erro dela foi pensar que poderia me atingir. Pode até atingir por dentro. Mas por fora aprendi a permanecer intocável. Era o que todos acreditavam. E o que me diferenciava de todos.
Eu sempre tive minha própria metáfora. Misturava meu nome com elogios começados com M. Meus amigos brincavam com isso, e justamente nesse dia estava escrito na lousa Melina Magnifica Matarazzo, feito por um admirador qualquer quando eu disse que estava triste aquele dia. Edward era aluno de outra sala, me lembro perfeitamente bem dele adentrando a sala e vendo sua amiguinha chorando. Ele a consolou por alguns minutos, beijando seus cabelos, acariciando suas costas. Eu lembro, eu estava olhando. E lembro também quando ele levantou de supetão, foi até a lousa e passou um risco forte de giz colorido no Magnifica, trocando-o por Megera, completando Melina Megera Matarazzo. Ele me lançou um olhar de fúria e saiu da sala com Mary.
- Quer que eu estoure a cara dele? - perguntou Jesse cerrando os dentes.
- Não precisa. Ele vai se arrepender disso - disse calmamente.
- Tem certeza? - perguntou furioso.
- Absoluta.
Naquele dia eu estava fervendo de ódio por dentro, mas algo naquele olhar, mesmo que de fúria, era diferente. Eu não imaginava que aquele olhar seria o olhar do meu primeiro amor. Eu não imaginava que eu iria adorar tanto aqueles olhos puxados. Eu não imaginava que aquele garoto que estava ali todo empenhado em fazer sua amiga se sentir bem me atacando iria me amar tanto. Você nunca sabe quando será a ultima vez que você será inteiramente seu. E esse foi um dos meus últimos dias inteira. Em seguida, parte minha seria dele. E o pior, para sempre.
I - A garota da velinha azul
Começamos falando sobre meu livro favorito "Dom Casmurro", acostumem-se se quiser ir até o fim, pois eu não sou eu sem um monte de referencias e citações. Acredito firmemente que todos nós somos um amontoado de coisas que gostamos ou não, e que de alguma forma fica na nossa mente pra sempre. Citarei meu livro favorito apenas pra dar o ponta pé inicial em toda essa história "O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida", o meu fim não é como do livro, ainda sou muito nova para atar as duas pontas da vida, o meu é bem mais simplório, é atar as pontas de um ciclo. Comecei falando de mim, e você pode até ter se enganado sobre essa história, mas para os que esperavam mais, sinto em decepcionar. Isso é uma história de amor. E começamos pelo fim.
Acho que eu poderia fazer uma lista chamada as piores coisas de terminar um relacionamento, e aqui vai a primeira. Datas especiais. O dia começa normalmente, você acorda, se espreguiça e então faz a burrada de olhar o celular. 6 de maio. Seria um dia normal, se não fosse o aniversário dele, e você sabe, não da pra evitar. As lembranças chegam sem ser convidadas, e não ficam satisfeita em só tomar um cafézinho com você, as vezes elas ficam o dia inteiro. E nem dez cabos de vassoura atrás da porta são capazes de expulsá-las.
Todos os dias 6 de maio que passamos juntos eu fiz a mesma coisa. Comprei um cupcake e uma velinha azul e exatamente a meia noite invadia nosso quarto cantando parabéns da maneira mais afinada que eu conseguia.
Acho que eu poderia fazer uma lista chamada as piores coisas de terminar um relacionamento, e aqui vai a primeira. Datas especiais. O dia começa normalmente, você acorda, se espreguiça e então faz a burrada de olhar o celular. 6 de maio. Seria um dia normal, se não fosse o aniversário dele, e você sabe, não da pra evitar. As lembranças chegam sem ser convidadas, e não ficam satisfeita em só tomar um cafézinho com você, as vezes elas ficam o dia inteiro. E nem dez cabos de vassoura atrás da porta são capazes de expulsá-las.
Todos os dias 6 de maio que passamos juntos eu fiz a mesma coisa. Comprei um cupcake e uma velinha azul e exatamente a meia noite invadia nosso quarto cantando parabéns da maneira mais afinada que eu conseguia.
✤ ✤
- Parabéns pra você - cantarolei andando de joelhos na cama com o bolinho na mão. Ele sorriu, um sorriso lindo que fazia seus olhos castanhos ficarem ainda mais puxadinhos.
- Eu já disse que essa é a melhor forma de começar mais um ano de vida? - passou a mão em volta da minha cintura e me deu um selinho demorado.
- Já sim - ri o encarando. Eu amava os olhos dele - Ano passado você disse exatamente a mesma coisa - ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha como se tivesse tocando uma coisa muito preciosa.
- Viu? Era porque não era mentira, amor. E todo ano eu quero dizer a mesma coisa - disse me encarando profundamente. Eu sempre ficava sem jeito quando ele me olhava daquela forma. Logo eu, que nunca ficava sem jeito com nada, era reduzida a mais boba das criaturas quando ele estava perto.
- Anda faz um pedido - disse animada olhando pra velinha.
- De novo? - perguntou fazendo careta me levando a rolar os olhos.
- É! De novo. Todo ano um pedido novo - ele fechou os olhos e provavelmente fez um pedido.
Eu fechei também, e secretamente pedi baixinho que ele estivesse pedindo por nós dois.
Se ele pediu, as preces não foram atendidas.
- Eu já disse que essa é a melhor forma de começar mais um ano de vida? - passou a mão em volta da minha cintura e me deu um selinho demorado.
- Já sim - ri o encarando. Eu amava os olhos dele - Ano passado você disse exatamente a mesma coisa - ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha como se tivesse tocando uma coisa muito preciosa.
- Viu? Era porque não era mentira, amor. E todo ano eu quero dizer a mesma coisa - disse me encarando profundamente. Eu sempre ficava sem jeito quando ele me olhava daquela forma. Logo eu, que nunca ficava sem jeito com nada, era reduzida a mais boba das criaturas quando ele estava perto.
- Anda faz um pedido - disse animada olhando pra velinha.
- De novo? - perguntou fazendo careta me levando a rolar os olhos.
- É! De novo. Todo ano um pedido novo - ele fechou os olhos e provavelmente fez um pedido.
Eu fechei também, e secretamente pedi baixinho que ele estivesse pedindo por nós dois.
Se ele pediu, as preces não foram atendidas.
✤ ✤
Esse é meu primeiro 6 de maio depois dele. Eu tive a péssima ideia de tentar escrever um texto de felicitações. É claro que não deu certo. E entrou para a listas das cartas que escrevemos e nunca enviamos. Embora o que tivesse escrito na carta fizesse parte de nós dois, embora tudo na carta fosse sobre nós dois. Será que eu ainda representava pra ele o mesmo que ele representava pra mim? Acho que essa é a dúvida que mais perturba os casais da humanidade.
"Esse não é um texto saudoso, ou não era pra ser. Não era pra dizer que ainda estou construindo cada dia um quadro cheio de lembranças nossas. Não era pra dizer que ainda estou achando pedacinhos de nós dois por toda parte. Não era pra ser, eu juro que tentei. Mas você me conhece, sabe que nem sempre o que eu tento dá certo. Receitas. Textos felizes. Nós dois. Esse era um texto para te desejar feliz aniversário. Eu pretendia dizer o sempre bom "feliz aniversário, tudo de bom, hoje, amanhã e sempre", mas quando se trata de nós dois sempre tem algo a mais.
Parabéns!
Com amor,
A garota da vela azul."
E esse 6 de maio que parece eterno é só mais um dia dos muitos que estamos longe um do outro. Até ontem se alguém me perguntasse poderia dizer que tava tudo ótimo, porque seria verdade. Ontem nem sufocava mais a saudades dele. Ontem nem doía ouvir o nome dele, poderiam repetir um milhão de vezes que eu apenas pensaria "É só um nome". Ontem nada significava ele, nem a sua banda favorita, nem seu estúpido livro predileto, se eu dissesse que poderia assistir todos os filmes de Harry Potter ontem, será que ele acreditaria? Eu digo, eu poderia. Mas hoje, hoje não dava. Hoje até o porteiro estava usando a camisa naquele tom que ele adorava. Hoje passaram na rua com perfume dele. Hoje tocou aquela música que cantamos juntos enquanto ele dirigia. Hoje até o ar que eu respirei me lembrou dele. Mas eu botei na minha cabeça dura que era só mais um dia. Tanto faz. Esse dia não seria pior do que alguns outros foram. É só mais um dia. Passaria, sempre passava. Enquanto não passava fiquei olhando para o teto e pensando no nosso quase felizes para sempre da nossa louca e bagunçada história de amor. Terminei o dia adicionando mais um item nas piores coisas de terminar um relacionamento: pensar que por um quase não demos certo.
"Esse não é um texto saudoso, ou não era pra ser. Não era pra dizer que ainda estou construindo cada dia um quadro cheio de lembranças nossas. Não era pra dizer que ainda estou achando pedacinhos de nós dois por toda parte. Não era pra ser, eu juro que tentei. Mas você me conhece, sabe que nem sempre o que eu tento dá certo. Receitas. Textos felizes. Nós dois. Esse era um texto para te desejar feliz aniversário. Eu pretendia dizer o sempre bom "feliz aniversário, tudo de bom, hoje, amanhã e sempre", mas quando se trata de nós dois sempre tem algo a mais.
Parabéns!
Com amor,
A garota da vela azul."
E esse 6 de maio que parece eterno é só mais um dia dos muitos que estamos longe um do outro. Até ontem se alguém me perguntasse poderia dizer que tava tudo ótimo, porque seria verdade. Ontem nem sufocava mais a saudades dele. Ontem nem doía ouvir o nome dele, poderiam repetir um milhão de vezes que eu apenas pensaria "É só um nome". Ontem nada significava ele, nem a sua banda favorita, nem seu estúpido livro predileto, se eu dissesse que poderia assistir todos os filmes de Harry Potter ontem, será que ele acreditaria? Eu digo, eu poderia. Mas hoje, hoje não dava. Hoje até o porteiro estava usando a camisa naquele tom que ele adorava. Hoje passaram na rua com perfume dele. Hoje tocou aquela música que cantamos juntos enquanto ele dirigia. Hoje até o ar que eu respirei me lembrou dele. Mas eu botei na minha cabeça dura que era só mais um dia. Tanto faz. Esse dia não seria pior do que alguns outros foram. É só mais um dia. Passaria, sempre passava. Enquanto não passava fiquei olhando para o teto e pensando no nosso quase felizes para sempre da nossa louca e bagunçada história de amor. Terminei o dia adicionando mais um item nas piores coisas de terminar um relacionamento: pensar que por um quase não demos certo.
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