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II - A intocável

sexta-feira, 29 de maio de 2015 /


  As pessoas costumam criar fantasias sobre as outras quando não as conhecem. Há alguns anos atrás me sentia estupidamente jovem e intocável. Não intocável no sentido literal, apenas sentia como se nunca realmente alguém chegasse a fundo em mim. Eu tinha um namorado. Amigas incríveis. Éramos tipicamente adolescentes, cheios de incertezas, metidos a imortais e com uma vontade louca de testar todos os limites. Jesse foi o meu primeiro caso mais sério. Eu o olhava e sentia um carinho enorme, mas não era amor, sempre soube. Ele também deveria saber, mas preferia se entregar para o que ele achava que era amor. Não preciso ser convencida para dizer que ele era totalmente apaixonado por mim, porque não sou do tipo de garota que finge que não sabe as coisas. Ele era. Totalmente entregue a minha fantasia adolescente. Ah! Se você quiser saber, ele superou isso naquela época mesmo e hoje ainda é meu melhor amigo. Mas vamos ao passado. Todo mundo um dia parte corações. E eu, infelizmente, não sou uma exceção.

- Como você se imagina quando tipo... Ficar adulta? - perguntou Jesse com aquele sorriso de menino encantador. Ele era uma completa gracinha. Ele tinha os olhos de sonhador. Tinha sede do mundo. Eu amava isso nele.    
- Me imagino tipo... Adulta? - dou de ombros rindo da pergunta dele.
- Eu imagino, quer saber? - perguntou me abraçando pela cintura.
- O problema de todo mundo é que todos pensam demais no futuro e esquecem o presente - disse o olhando sentindo a brisa leve do grande parque em que estávamos
- Não estrague a coisa toda - ele disse mordendo meu nariz - Você é uma perfeita estraga prazeres, sabia? - os olhos dele sorriam junto com os lábios. E isso também era adorável. Olhos azuis como o oceano, mas não era um mar que me fazia ter vontade de nadar.
- Não sou. Estou preservando o momento - ri e ele continuou me olhando - Ok. Ok. Como você se imagina adulto? - perguntei rolando os olhos.
- Nós somos amigos de infância, igual nos filmes. Imagina como seria... - ele me olhou - estranho se a gente casasse - eu o fitei - Mas um estranho bom - disse ele finalizando.
- A gente não vai casar - ri e me sentei na grama. Não disse para magoa-lo, mas sabia muito bem que o fiz. Ele sentou ao meu lado e continuou conversando comigo normalmente, mas quando olhava pra ele de relance podia ver a decepção em seus olhos. Eu não sabia o que era amor, mas tinha alguma ideia. Eu sentia que era algo maior do que uma paixão adolescente. Jesse foi meu primeiro em tudo, ou melhor, em quase tudo, ele não foi o meu primeiro amor.

Eu lembro perfeitamente a primeira vez que Edward se dirigiu a mim. E digamos que não foi muito agradável. Foi num amigo oculto, toda vez no colégio quando estava próximo as férias fazíamos esse jogo. E quem teve a sorte de me tirar foi a melhor amiga do Edward, a Mary. Ela levantou, parou no meio da roda e começou a falar meio envergonhada, mas olhando diretamente em meus olhos.

- A pessoa que eu tirei é a pessoa mais exagerada e forçada que eu conheço. Tudo nela, desde as unhas vermelhas até os cabelos quase brancos de tão loiros soa exagero - disse finalizando seu discurso com um leve sorrisinho no rosto. A encarei por alguns instantes e quando ela disse meu nome levantei pra pegar meu presente. Era uma caixinha de música.
- Mary, muito obrigada pelo seu elogio - eu disse com o presente na mão - Adorei o presente. Eu não sabia que você falava, sabia? - uma chuva de risadas invadiu a sala - Fiquei surpresa que usou as suas primeiras palavras pra me elogiar. Prefiro ser muito do que não ser nada - sorri a ela e me sentei em meu lugar, ligando a caixinha de música. Eu sabia exatamente que ela choraria. As pessoas adoram se fazer de vitima. Mary era dessas, me odiava por algum motivo desconhecido e se sentia no direito de se sentir vitima da história toda. O erro dela foi pensar que poderia me atingir. Pode até atingir por dentro. Mas por fora aprendi a permanecer intocável. Era o que todos acreditavam. E o que me diferenciava de todos.

Eu sempre tive minha própria metáfora. Misturava meu nome com elogios começados com M. Meus amigos brincavam com isso, e justamente nesse dia estava escrito na lousa Melina Magnifica Matarazzo, feito por um admirador qualquer quando eu disse que estava triste aquele dia. Edward era aluno de outra sala, me lembro perfeitamente bem dele adentrando a sala e vendo sua amiguinha chorando. Ele a consolou por alguns minutos, beijando seus cabelos, acariciando suas costas. Eu lembro, eu estava olhando. E lembro também quando ele levantou de supetão, foi até a lousa e passou um risco forte de giz colorido no Magnifica, trocando-o por Megera, completando Melina Megera Matarazzo. Ele me lançou um olhar de fúria e saiu da sala com Mary.

- Quer que eu estoure a cara dele? - perguntou Jesse cerrando os dentes.
- Não precisa. Ele vai se arrepender disso - disse calmamente.
- Tem certeza? - perguntou furioso.
- Absoluta.

Naquele dia eu estava fervendo de ódio por dentro, mas algo naquele olhar, mesmo que de fúria, era diferente. Eu não imaginava que aquele olhar seria o olhar do meu primeiro amor. Eu não imaginava que eu iria adorar tanto aqueles olhos puxados. Eu não imaginava que aquele garoto que estava ali todo empenhado em fazer sua amiga se sentir bem me atacando iria me amar tanto. Você nunca sabe quando será a ultima vez que você será inteiramente seu. E esse foi um dos meus últimos dias inteira. Em seguida, parte minha seria dele. E o pior, para sempre.

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