III - O trato
sexta-feira, 5 de junho de 2015
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Você já teve a impressão de que precisava apenas de uma chance pra provar que é diferente do que as pessoas pensam que você é? Era exatamente o que eu sentia em relação ao Edward. Cheguei em casa depois daquele dia e a primeira coisa que fiz foi jogar a palavra "megera" no google. Eu sabia que significava ao ruim, mas queria ir a fundo no que ele pensava sobre mim. Eu não sabia o porquê, mas me importava com que ele pensava. Encontrei "Na mitologia grega Megera personifica o rancor, a inveja, a cobiça e o ciúme." Ou "Megeras são representadas normalmente como mulheres aladas de aspecto terrível.". Passei a noite inteira pensando nisso e no dia seguinte decidi fazer algo para me defender daquela acusação horrível.
Encontrei Edward no corredor, ele estava de costas, mas quando virou me viu. Pareceu meio surpreso quando eu continuei caminhando até ele.
- Você sabe o que você fez comigo? - perguntei o encarando firmemente.
- Eu? - perguntou confuso.
- Você me expôs ao ridículo, me deixando totalmente constrangida - coloquei a mão no peito para efeito dramático - isso se chama Bullying. E é motivo de suspensão. Alias eu tenho diversas testemunhas - disse e dei um sorriso.
- Você não parece muito magoada - disse ele me encarando - Você não parece o tipo de pessoa que se magoa com qualquer coisa, já que magoa as pessoas com facilidade - retrucou.
- Bom... Eu tenho um trato, você pode assistir um filme comigo ou eu retratarei o caso a direção. E eu sou boa atriz quando eu quero - arqueei uma sobrancelha. Ele semicerrou os olhos.
- Por que isso? - perguntou irritado.
- Porque eu estou te dando a chance de tirar suas próprias conclusões. Acho meu trato mais do que justo.
- E como eu vou saber que não é uma emboscada? - perguntou desconfiado.
- Vai ser na minha casa. Por Deus, como eu armaria uma emboscada na minha casa? Com meus pais lá? - perguntei ofendida.
- Okay! - respondeu.
- Se você não... - me interrompi - O que?
- Ok - deu de ombros - Tanto faz. Aceito seu trato idiota.
Dei um sorriso e caminhei em direção a minha sala. As vezes fico pensando se foi um trato idiota realmente. Mas não importa quantas coisas ruins tenham acontecido entre a gente. Nada nunca irá apagar da minha mente as coisas boas, porque no final de tudo, são as coisas boas que realmente importam. São os sorrisos apaixonados. Os toques das mãos que causam calafrios. As juras de amor trocadas. Nada disso se apaga. E minha alma está completamente tatuada das nossas lembranças. Elas vão envelhecer comigo, talvez desbotem, talvez não sejam tão coloridas daqui uns tempos, mas serão sempre tatuagens. Eu as olharei e lembrarei o quanto elas significavam pra mim quando foram marcadas.
Ele cumpriu com a palavra e na hora marcada apareceu na minha casa.
- O que a gente vai assistir? - perguntou entrando em meu quarto, vestindo uma camisa azul marinho e calça Jeans. Eu podia dizer naquele momento que azul marinho era a minha cor favorita de tão bonito que ficou nele. Logo eu que nunca gostei de azul, sempre preferi vermelho.
- O meu filme favorito - disse cumprimentando ele com um beijo no rosto.
- Meninas malvadas? Se for eu vou embora - ele disse rindo. Parecia estar baixando a guarda.
- Não - ri - é Titanic. Mas como você sabe que eu amo "Meninas Malvadas"? - perguntei rindo.
- Que previsível - ele debochou - Porque minha irmã gosta. Eu nunca vi Titanic. Sei que todo mundo já viu, mas sempre achei longo demais.
- Okay. Então sua primeira vez será comigo - brinquei e ele riu.
- Se você diz. E se essa é sua forma de provar que você não é uma megera - deu de ombros e se sentou no puf que eu havia separado pra gente.
- As pessoas tem uma mania de ter primeiras impressões completamente deturpadas. Você quer ir além ou quer continuar só na superfície a vida toda? - perguntei - Eu te deixo ir embora. E desisto da chantagem inicial se você quiser realmente ir embora - disse abrindo a porta. Ele me encarou fixamente.
- Quanta profundidade - ele riu - Quero sair da superfície - ele imitou a minha frase com um sorriso de lado - Vou ir além. Eu quero ficar - disse olhando pra tv.
- Prepare-se para um oceano de emoções - brinquei rindo. E então liguei o filme.
Enquanto o filme rodava ficamos conversando sem parar. No começo ele parecia relutante, mas eu sempre falei demais e acho que ele percebeu que não teria outra alternativa a não ser interagir comigo. E ele foi se soltando, até parecermos amigos de infância. Eu falei sobre meus sonhos, disse que eu queria me formar em jornalismo e ser uma jornalista importante um dia. Ele me contou que pretende cursar marketing e fazer uma pós em administração pra cuidar da empresa da família. Que ele toca violão e adora cantar, mas que tem vergonha de fazer isso na frente de outras pessoas. Eu mostrei a ele que meu dedo mindinho era torto graças a um tombo que levei na infância. Ele mostrou uma cicatriz na perna que ele adquiriu quando andava de bicicleta e se jogou para desviar de um gato, aproveitei pra contar que sou apaixonada por gatos, mostrei fotos dos oitos gatos que passaram por minha vida e contei a história de cada um deles, ele escutava tudo atentamente.
- O filme ta quase acabando e a gente não assistiu nada - ele disse rindo.
- Rose, ganhar a passagem foi a melhor coisa que me aconteceu. Porque me trouxe até você. E fico grato por isso Rose, fico grato. Você precisa me dar esta honra, precisa prometer que vai sobreviver, que não vai desistir não importa o que aconteça, por mais desesperador. Prometa isso agora Rose e nunca desista de cumprir essa promessa - repeti a fala junto do personagem.
- Se você já sabe as falas de cor porque escolheu esse filme? - perguntou me encarando com um sorriso no rosto.
- Porque era o mais longo que eu conheço - ri fraquinho - E é o meu favorito. Que tipo de megera gosta de Titanic?
Ele rolou os olhos - Talvez você não seja tão megera assim. Mas só talvez - e então me olhou. Diferente de todas as outras vezes, bem de pertinho. Meu coração acelerou, e eu não entendia nada daquilo. Meu coração nunca tinha disparado com um olhar e nem com a presença de alguém. Eu não conseguia tirar os olhos dele. Nossas testas se encontraram e minha respiração acelerou. A dele também. Ficamos sentindo nossas respirações quietinhos, parecia que qualquer movimento brusco destruiria o momento.
- Profundidade. Filmes românticos. Paixão por bichos. Muitos sonhos... O que mais eu não sei sobre você ein? - perguntou me olhando daquele jeito que só ele sabia.
- Quase nada - murmurei e sorri.
- Acho que fiquei curioso - nossos lábios quase se tocaram. Mas minha mãe bateu na porta para oferecer lanchinho. Eu quis dizer "pelo amor de Deus mãe, como a senhora interrompe o beijo da mocinha e do mocinho por causa de um lanche?". Mas fiquei quieta, comemos o lanche e depois ele foi embora. E eu refleti que eu nunca seria o tipo certo se mocinha. Nunca seria boazinha demais. Nunca seria perfeita em nada. Nunca seria prudente, sempre preferi ser porra louca inconsequente. Mas olhando nos olhos dele, eu me senti certa em algum lugar. Ele me fazia ter vontade de ser a pessoa certa pra ele. Talvez tenha funcionado por um tempo. Mas eu te digo, não foi tempo suficiente. No amor a gente sempre quer mais do que nos é oferecido.
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