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IX - O outro alguém

quarta-feira, 8 de julho de 2015 /



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“As palavras se perdem quando vou falar dela. Então, não ligue se isso aqui soar sem nexo, ficar enrolado ou não fizer sentido pra você. Nossa história, se é que temos uma, pode ter qualquer coisa, menos sentido...


O maior problema de término de relacionamentos – pelo menos no meu caso, é que é sempre muito difícil seguir em frente. Metade de mim queria estar pronta pra me entregar de cabeça ao Aidan, mas metade de mim estava completamente presa ao passado. Saí com alguns caras, mas evitava o Aidan, porque eu sabia que com ele era diferente. Era diferente de beijar o Ramón ou o Chad… Simplesmente porque era o Aidan e eu não queria admitir que mal tinha acabado de me foder em uma relação e já estava entrando em outra. Nossos encontros eram maravilhosos, todo mundo que me visse com o Aidan diria: vocês foram absolutamente feitos um para o outro. Mas a qualquer sinal de aproximação dele, eu recuava. Eu tentava de tudo e em certos momentos me achava decidida a tentar. Mas era difícil, nós simplesmente não batíamos. Quando eu me sentia preparada e dava alguma investida clara, ele achava que eu ainda pensava no meu ex. Quando ele se sentia pronto, eu acabava deixando o nome de Edward escapar.

Não demorei muito para perceber que Aidan estava na minha. Era só ler a coluna dele. E toda quinta-feira (dia que ele liberava textos) eu corria pegar meu notebook e lia cada letra com o coração na mão. Eu nunca esquecia. Mas quando chegava na frente dele, eu fingia não saber de nada. Eu não sabia o que me acontecia. Mas eu sabia que eu estava pensando demais nele. E que ele me acalmava. E que eu nos imaginava fazendo loucuras. E que ele me deixava maluca. Eu amava até o cheiro do hálito dele. Da pele. Eu amava a adrenalina que sempre ficava entre a gente. E o mais triste era fingir que ele não me afetava em nada. Simplesmente, porque eu achava que ele merecia alguém melhor.

...Também não espere muito do final, vou logo avisando. Não sei nem onde fica o começo, e talvez, apenas talvez, seja porque estou escrevendo essa droga de texto mas a minha mente está lá. Naqueles olhos azuis que me enlouquecem. Naqueles olhos que distraem até o mais firme jogador. Minha mente está lá. Assim como eu queria estar…

Acho que depois de um tempo, ele também concordou que merecia alguém melhor. E é ai que minha linda cunhada, a Cecelia, entra na história. Ela definitivamente era alguém melhor que eu nesse quesito, você sabe, menos complicada. Mas ai eu não tinha certeza se queria que ele arranjasse alguém melhor.

Quando apresentei Aidan e Cecelia eu não imaginei que eles fossem se dar tão bem. Cecelia tinha acabado de se mudar para minha cidade e eu era a única pessoa que ela conhecia. Sempre nos demos bem, fiquei contente em levá-la pra sair conosco. Percebi que logo na primeira noite eles ficaram conversando um tempão. Respirei fundo e decidi fazer o de sempre: fingir que não ligo. Chapei a noite toda e me lembro de acordar ao lado do Ramón. Cobri minha cabeça imediatamente.
- Não vou nem perguntar o que aconteceu – murmurei tentando conter minha raiva.
- Relaxa, gata. Nada do que não tenhamos feito antes – respondeu. E olhei pra ele odiando aquele cabelo de ninho de passarinho dele. Eu, que achava dreads a coisa mais sexy da vida, estava com vontade de arrancar cada um deles com a mão – Quer? - ofereceu um cigarro.
- Ramón, de verdade. Só quero que você caia fora daqui – me levantei me cobrindo com o lençol – Por favor – pedi – Depois a gente conversa.
- Beleza, Melina. Mas o que tá pegando? Ficou caretinha de uma hora pra outra?
- Só não to legal.
- Credo, Melina. Falando assim parece que eu te estuprei. A gente sempre transa, não achei que você fosse acordar assim.
- Aidan… - revirei os olhos – Ramón… - me corrigi – Eu só estou a fim de ficar de boa na minha casa. Relaxa!
- Entendi. É o poetinha, né? - perguntou me fitando.
- Que mané poetinha. Anda… Anda – coloquei Ramón para fora da minha casa.

E finalmente, cai na minha cama. Me sentindo péssima. O que eu tava fazendo? O que eu estava fazendo da minha vida? Eu costumava ser aquela que ria de perder o folego. Aquela que incentivava todos a correrem atrás do seus amores. Eu costumava ser aquela que prezava as coisas reais. E agora, tudo que eu sabia fazer era me drogar e afastar tudo que fosse me dar vida. E aquela garota que eu já fui? Eu percebi que eu sentia a minha falta. E isso não era sobre alguém, era sobre mim. Era sobre me sentir perdida dentro de mim mesma. Eu não sabia o quão longe eu estava de mim. E não sabia se alguém sacava isso, pois eu estava disfarçando tão bem. Sendo o centro de tudo. Sendo a maluca que topa tudo. Tentando fazer o que era falso mais real.

...Ligo pela terceira vez e ninguém atende. Já vi tudo. História que se repete sempre. Ciclo vicioso. Que vá se foder quem disse que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. É a terceira vez que cai aqui só essa semana. Desisto de ligar e me jogo na cama. Fico pensando na imensidão de coisas que perco depositando tanto tempo nela. E aí vejo o infinito vezes dois de coisas que ela me faz e me deixam bem, sem que ela nem perceba. Pronto. No jogo na minha cabeça, o bem que ela me faz, compensa tudo. Ela 1 x Eu 0…

“Chegou bem em casa?” - perguntou Aidan e percebi que tinha algumas chamadas perdidas.
“Ótima, e você cuidou bem da Cecelia?” - eu tinha prometido que não ia enviar isso, até que magicamente aperto o botão enviar.
“Levei ela pra casa. Ela é bem legal”
Foda-se – pensei. Nojento. Asqueroso. Filho de uma égua.
“Ela é mesmo <3” - foi o que eu respondi.

...E é aí que está o problema. Ela me ganha. Ela me ganha em tudo. Ela me ganha mesmo quando faz de tudo pra me perder. Me ganha mesmo quando eu faço de tudo para ganhá-la. E cá entre nós, sabemos que nesse jogo só pode existir um vencedor. Ela retorna a ligação. Eu desligo. Ignoro. 3 dias. Não vou dar o braço a torcer. Não dessa vez. Ela que fale com o motivo que a impediu de me atender nos últimos dias…

Eu percebi em meio aos meus ataques de ciúmes silenciosos que eu estava apaixonada pelo Aidan. E quando, finalmente, nos beijamos pela primeira vez, eu tive certeza. Eu estava apaixonada pelo Aidan. Eu tinha bebido um pouco no dia. Mas nem precisava disso pra me sentir a vontade com ele.
- Você é tão babaca comigo as vezes – murmurei sentindo a respiração de Aidan colada na minha.
- Eu? Você que se afasta o tempo todo – ele sussurrou no meu ouvido e em seguida encostou os lábios em meu pescoço fazendo um carinho que me fez ficar toda arrepiada.
- Eu não me afasto. Eu só tava deixando seu caminho livre… Pra alguém melhor
- Quem disse que eu quero alguém melhor? - perguntou me encarando com aqueles olhos azuis. E eu não só tinha vontade de mergulhar, como de me afogar neles.
- Então você é super babaca – constatei rindo.
- É mesmo? - colocou a mão em minha nuca me pegando pelo cabelo e colou os lábios nos meus iniciando um beijo inicialmente lento, mas que foi ganhando mais intensidade, não sei se era por ser tão esperado, mas aquele beijo tinha um enorme gostinho de “não-quero-que-acabe”, nossas línguas brincando uma com a outra, nossa respiração descompassada, aquele gosto de puro prazer – Eu não me sinto tão babaca assim agora – finalizou piscando pra mim, antes de voltar a me beijar. E eu me sentia no céu. Como eu não me sentia há muito tempo. E o melhor. Era real. Era tão diferente de todas as coisas falsas que eu havia me dedicado. Era simplesmente, verdadeiro.

Aidan e eu. Éramos quase um casal. Mas sem pedidos oficiais, nem nada. O problema era nossas brigas idiotas sempre pelo mesmo motivo. Insegurança. Pra acabar com aquilo tudo. Tentei provar ao Aidan que eu o amava. Do jeito que ele era. Foda-se se eu já tinha dito que o Edward era o amor da minha vida um milhão de vezes. Eu não sabia que eu poderia achar outro amor da minha vida, ué! Eu sempre fui burra demais. E eu estava com Aidan, quando decidi escrever aquela maldita carta de aniversário pro Edward. E ele leu. Ele simplesmente, pegou meu celular e leu. É claro que ele não disse nada pra mim, mas eu sabia que tinha algo errado quando ele foi se afastando cada vez mais de mim e nosso quase relacionamento foi por água abaixo. Eu tinha um dom de fazer burradas. Como eu não sabia, enviei uma declaração para o Aidan e estranhei muito quando ele respondeu “Seu jeito de amar é esquisito, eu não sei amar por dois”. Fiquei morrendo de ódio dele.

E aos poucos ele e Cecelia foram se aproximando cada vez mais. E ele cada vez mais distante de mim. E eu sempre fingindo não ligar. E funcionava, todos pareciam acreditar. Menos a Rachel, mas a Rachel, não conta, a Rachel é a Rachel. E eu tava de boa, com isso. Continuei levando a minha vida normalmente. Mas eu pareço ter um dom para problemas. E então, num mágico dia, Cecelia bebeu um pouco e enquanto estávamos numa rodinha jogando conversa fora, ela virou e soltou:
- Eu to chateada porque notei o clima ruim entre a Melina e o Aidan. E então de uma hora pra outra ele ficou ainda mais carinhoso e... Sei la. É como se eu tivesse no meio de vocês. Pode parecer bobeira mas eu me sinto uma intrusa… - ela disse me encarando especificamente. E eu juro, naquele momento eu quis ser invisível. Como assim alguém tinha coragem de levantar o assunto? O que eu tanto tentei evitar sendo jogado ao ar, bem ali na minha cara. Como um tapa. O pior, pela minha cunhada. Ex cunhada. Que seja. Eu tive que olhar pro Aidan e dessa vez era sem aquela fantasia de “somos amiguinhos”.
- Cecelia não viaja. Você não é intrusa em nada – se adiantou Aidan. E fiquei com medinho do que ele fosse falar. Quase me engasguei com a vodka e então, finalmente criei coragem e disse:
- Você não é intrusa nada. Porque eu e o Aidan nunca tivemos nada – finalizei da maneira mais fria que eu conseguia. Me machucava estar naquela situação, eu gostava do Aidan. Era difícil fingir que não. Era chato o clima estranho entre a gente. Era insuportável. E essa era minha maneira de lidar com a situação. Mas como eu ia saber que ele tinha lido aquele texto? Só soube um tempo depois, quando Jesse disse que a Cecelia havia dito pra ele, que Aidan planejava me pedir em namoro naquele 6 de maio. Que ele estava preparando uma surpresa. Eu não sabia. E quase morri quando soube. Pra mim ele só havia enjoado de mim e partido pra outra. – E se vocês querem, saber… Torço pro casal – acrescentei e dei um sorriso. Que eu achava que era o melhor do mundo e bebo mais um gole da minha vodka.
- Sabe qual é o problema? É que todo mundo aqui fica guardando sentimento pra não se machucar. Pra não machucar o outro. E no final, todo mundo se fode – disse Rachel tentando solucionar o problema. Quando você tem um grupo de amigos, você tem que se acostumar com um se metendo na vida do outro. O problema era que eu estava acostumada a me meter na vida de todos. Só nunca tinha permitido que eles tentassem me ajudar. Eu sempre me achei muito autossuficiente. Que bobagem. Se bobear, eu era uma das que mais precisava de todos eles.
- O que acontece é o seguinte. Já que é pra colocar as cartas na mesa... Eu sei que você tava com medo de que eu estivesse te usando pra “tentar” atingir a Melina, mas pelo amor de Deus... Eu seria incapaz de fazer isso. Primeiro, obviamente, por você e segundo, que Deus do céu, onde, eu, Aidan, iria querer atingir a Melina?
Revirei os olhos. E respirei fundo enquanto ouvia pessoas dizerem pra Cecelia que o Aidan nunca a usaria. E continuei tentando me manter neutra naquela situação toda.
- A Melina tá com ciume do Aidan e tá tentando disfarçar – ouvi minha cunhada dizer. E me perguntei mentalmente quando ela havia ficado tão irritante.
- Aidan é um trouxa porque gamou numa mina que é rápida demais pro raciocínio dele e tá magoadinho. E Melina é mais trouxa ainda porque gamou num trouxa – obvio que foi Rachel que disse isso.
- Eu não estou com ciúme. Eu estou com ódio – disse tentando ser calma – Porque você, Aidan, do nada decidiu me dar um gelo. E fica sendo grosso, ou mandando indiretas, ou escrevendo coisas que me magoam… Cara, eu sinceramente…
- Eu escrevo e você faz coisas que me magoam – ele, finalmente, finalmente me olhou nos olhos. Não era um olhar nada legal, já que nós estávamos nos estranhando faz tempo. Só nunca tínhamos parado pra falar sobre isso.
- Eu “respirar” te magoa – o fuzilei com o olhar.
- Não, o fato de você respirar não me magoa tanto – destilou ironia – O que me magoa é o fato de um dia você falar que me ama e no outro se declarar pro seu maridinho – bufou.
- Eu dizia que te amava e você dizia não poder amar por dois. Aidan o problema é que você nunca acreditou no meu amor.
- Porque eu sabia que você sentia alguma coisa pelo Edward – gritou.
Trocamos um milhão de acusações. Foi uma guerra feia. Os outros se tornaram figurantes do barraco em que testemunhavam. Eu não estava nem ai, só não podia deixar ele ficar pensando que eu era uma megera.
- O que eu fiz pra você? Sinceramente… Eu sempre fui honesta com você. Eu sempre quis o melhor pra você.
- O que você fez? Cara… Eu te esperei por tanto tempo. E você nunca me perguntou o que eu achava que era melhor pra mim, e eu achava que era você Melina. Era você. Se você tivesse me perguntado ia saber.
- Eu nunca te pedi pra esperar tempo nenhum – devolvi. Eu já estava nervosa com aquela confusão toda.
- Mas eu quis esperar. Porque eu amo você – disse olhando nos meus olhos – Eu só não queria te amar e sentir que seu amor é amor de gratidão de amigo, parceiro. Queria que me amasse por inteiro, como eu amo você.
- Você tem uma mania de achar que sabe tudo que eu penso. Se você acha que eu te amo como irmãozinho. Beleza, você se afastou tanto que isso não faz mais diferença.
- Ah... Melina… - explodiu dando um soco na mesa. Ninguém tentava acalmar nossos ânimos, era como se todos ali fossem reduzidos a nada – Pelo amor de Deus, você é burra? - disse num tom alterado
- Não grita comigo – gritei e bati na mesa de volta.
- Desculpa! - pediu – Eu sou mesmo inseguro. Idiota. Babaca e lerdo. Mas é só com você. Cara, me desculpa. Mas não sei como agir, porque você não é como o resto. Eu nunca senti nada parecido por ninguém – ele desabafou e suspirou parecendo ansioso pela minha resposta.
Não disse nada. Apenas me aproximei e respondi com meu beijo. Respondi o deixando sem folego pra ver se provava de uma vez por toda que eu o amava. Que eu o amava pra caralho. Mas o amor nem sempre é forte o bastante pra lutar com a insegurança. O amor as vezes também não é forte o bastante pra lutar com o passado. E as vezes o passado volta atropelando tudo como um tsunami, levando qualquer coisa que estava de pé.

… Mensagem dela. Me xingando. Chove a palavra "covarde" 500 vezes. Típico. E nem a culpo. Porque Melina, que cara não baixa a guarda quando está diante de alguém assim? Que cara não se sente perdido quando sabe que essa... Cara, essa não é mais uma. Difícil quando se sabe que não é você que tá no controle da situação. Não dessa vez. Não quando se trata dela. Bom, aí eu recuo e ela me xinga. E me puxa de volta. E eu vou. E suplico que dessa vez as coisas corram bem. Mas é claro que não correm. Na verdade, parece que Deus e o mundo não só correm, como sopram contra nós…
Publicado por Aidan Eaton”


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