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I - A garota da velinha azul

domingo, 24 de maio de 2015 /


 Começamos falando sobre meu livro favorito "Dom Casmurro", acostumem-se se quiser ir até o fim, pois eu não sou eu sem um monte de referencias e citações. Acredito firmemente que todos nós somos um amontoado de coisas que gostamos ou não, e que de alguma forma fica na nossa mente pra sempre. Citarei meu livro favorito apenas pra dar o ponta pé inicial em toda essa história "O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida", o meu fim não é como do livro, ainda sou muito nova para atar as duas pontas da vida, o meu é bem mais simplório, é atar as pontas de um ciclo. Comecei falando de mim, e você pode até ter se enganado sobre essa história, mas para os que esperavam mais, sinto em decepcionar. Isso é uma história de amor. E começamos pelo fim.

Acho que eu poderia fazer uma lista chamada as piores coisas de terminar um relacionamento, e aqui vai a primeira. Datas especiais. O dia começa normalmente, você acorda, se espreguiça e então faz a burrada de olhar o celular. 6 de maio. Seria um dia normal, se não fosse o aniversário dele, e você sabe, não da pra evitar. As lembranças chegam sem ser convidadas, e não ficam satisfeita em só tomar um cafézinho com você, as vezes elas ficam o dia inteiro. E nem dez cabos de vassoura atrás da porta são capazes de expulsá-las.

Todos os dias 6 de maio que passamos juntos eu fiz a mesma coisa. Comprei um cupcake e uma velinha azul e exatamente a meia noite invadia nosso quarto cantando parabéns da maneira mais afinada que eu conseguia.
  
✤ ✤ 
- Parabéns pra você - cantarolei andando de joelhos na cama com o bolinho na mão. Ele sorriu, um sorriso lindo que fazia seus olhos castanhos ficarem ainda mais puxadinhos.
- Eu já disse que essa é a melhor forma de começar mais um ano de vida? - passou a mão em volta da minha cintura e me deu um selinho demorado.
- Já sim - ri o encarando. Eu amava os olhos dele - Ano passado você disse exatamente a mesma coisa - ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha como se tivesse tocando uma coisa muito preciosa.
- Viu? Era porque não era mentira, amor. E todo ano eu quero dizer a mesma coisa - disse me encarando profundamente. Eu sempre ficava sem jeito quando ele me olhava daquela forma. Logo eu, que nunca ficava sem jeito com nada, era reduzida a mais boba das criaturas quando ele estava perto.
- Anda faz um pedido - disse animada olhando pra velinha.
- De novo? - perguntou fazendo careta me levando a rolar os olhos.
- É! De novo. Todo ano um pedido novo - ele fechou os olhos e provavelmente fez um pedido. 
Eu fechei também, e secretamente pedi baixinho que ele estivesse pedindo por nós dois. 
Se ele pediu, as preces não foram atendidas.
  ✤ ✤   
Esse é meu primeiro 6 de maio depois dele. Eu tive a péssima ideia de tentar escrever um texto de felicitações. É claro que não deu certo. E entrou para a listas das cartas que escrevemos e nunca enviamos. Embora o que tivesse escrito na carta fizesse parte de nós dois, embora tudo na carta fosse sobre nós dois. Será que eu ainda representava pra ele o mesmo que ele representava pra mim? Acho que essa é a dúvida que mais perturba os casais da humanidade.

"Esse não é um texto saudoso, ou não era pra ser. Não era pra dizer que ainda estou construindo cada dia um quadro cheio de lembranças nossas. Não era pra dizer que ainda estou achando pedacinhos de nós dois por toda parte. Não era pra ser, eu juro que tentei. Mas você me conhece, sabe que nem sempre o que eu tento dá certo. Receitas. Textos felizes. Nós dois. Esse era um texto para te desejar feliz aniversário. Eu pretendia dizer o sempre bom "feliz aniversário, tudo de bom, hoje, amanhã e sempre", mas quando se trata de nós dois sempre tem algo a mais.
Parabéns!
Com amor,
A garota da vela azul."

E esse 6 de maio que parece eterno é só mais um dia dos muitos que estamos longe um do outro. Até ontem se alguém me perguntasse poderia dizer que tava tudo ótimo, porque seria verdade. Ontem nem sufocava mais a saudades dele. Ontem nem doía ouvir o nome dele, poderiam repetir um milhão de vezes que eu apenas pensaria "É só um nome". Ontem nada significava ele, nem a sua banda favorita, nem seu estúpido livro predileto, se eu dissesse que poderia assistir todos os filmes de Harry Potter ontem, será que ele acreditaria? Eu digo, eu poderia. Mas hoje, hoje não dava. Hoje até o porteiro estava usando a camisa naquele tom que ele adorava. Hoje passaram na rua com perfume dele. Hoje tocou aquela música que cantamos juntos enquanto ele dirigia. Hoje até o ar que eu respirei me lembrou dele. Mas eu botei na minha cabeça dura que era só mais um dia. Tanto faz. Esse dia não seria pior do que alguns outros foram. É só mais um dia. Passaria, sempre passava. Enquanto não passava fiquei olhando para o teto e pensando no nosso quase felizes para sempre da nossa louca e bagunçada história de amor. Terminei o dia adicionando mais um item nas piores coisas de terminar um relacionamento: pensar que por um quase não demos certo.  

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