O mistério dos olhos dela
segunda-feira, 20 de julho de 2015
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Sempre quis saber o mistério que se escondia sob o olhar de Maria. Maria criatura esquisita. Tinha mania de morte. Única garota que conheci que tratava a morte com uma leveza espantadora. Vivia como se não houvesse amanhã. Não, não era uma dessas loucas desvairadas em baladas, nem se drogava ou sequer fumava. Era apenas contra a qualquer tipo de relacionamento, dizia não se sentir preparada. Mas, no fundo, era porque ela não se via em um futuro. Vivia alternando por ai. Não se conectava de fato com alguém. Claro que eu fui uma exceção. Não, Maria não se conectou a mim. Mas eu me encantei por Maria. Ah! Me encantei todos os dias por Maria.
Maria não fazia questão de ser mistério de ninguém. E não pareceu se importar quando insisti em ficar ao seu lado. Se você insiste - foi o que ela me disse quando a chamei para sair pela terceira vez. Mesmo que ela não fizesse nenhum esforço para ser agradável vivia cheia de ironias e sarcasmo. Mas quando ela sorria... O som da risada dela tinha um efeito louco em mim. Não acho nesse mundo nada que se compare ao som da risada dela. Mas poderia descrever como maligna. Talvez parecesse com o gargalhar de uma vilã. Maria sempre teve fascínio por vilãs. Sua mãe me disse que, quando pequena, era fã devota da Cruela Devil. Cruela? Que criança gosta da Cruela? Só ela.
Não era um personagem. Era apenas como ela era. Eu posso dizer que fui intimo o bastante dela para que pudesse observá-la sem aquele delineado grosso que sempre usava. Ela sorriu e me perguntou porque eu estava a olhando daquele jeito. Eu a disse que ela ficava diferente sem maquiagem. Era mentira. Ela continuava a mesma, só disfarcei minha curiosidade sobre aqueles olhos, pois seu olhar ainda era o mesmo. Triste. Ria das coisas mais idiotas. Perdia o fôlego rindo das coisas mais banais da vida. Não esqueço o dia que ela viu um casal ser ensopado por um caminhão que passou por cima de uma poça. Ela repetia incontáveis vezes: você viu a cara dela? E ria. E eu ria também. O som das nossas risadas juntos fazia um som bonito. Mas mesmo quando sorria, seu olhar ainda era triste.
Seus cabelos eram tão escuros quanto sua alma parecia ser. E eu com certeza não era como um daqueles insetos que são atraídos pela luz. Nada em Maria era contagiante. Não era dramática, para os outros parecia normal. Era linda, dançava como uma stripper, e as vezes sorria como um anjo. Chamava a atenção de qualquer um. Mas sua alma gritava por socorro todos os dias. Só que em silêncio. E ninguém percebia. Tentei a ajudar com uma lanterna, mas acabei me perdendo naquela escuridão.
Morreu aos dezoito anos de idade. Dizem que foi um acidente, bateu a cabeça em uma pedra numa cachoeira. Mas eu não acredito nisso. Só quem conhecia Maria sabia que ela sabia. Ela já sabia que morreria. De algum jeito estranho ela sempre me pareceu meio morta. E, quando se foi, levou um pouco de mim. Não chorei quando soube. Só me permiti chorar quando tive que passar maquiagem em seus olhos no seu corpo imóvel. É que algo me dizia que ela precisava daquele traço escuro. E se ela havia me dado o privilégio de ser o único a vê-la sem aquilo. Eu seria o único até o fim. Talvez, não fosse ela que precisasse, eu desconfio até que ela me mataria por aquele delineado torto. Admito. Talvez eu precisasse daquilo. E esse era o mistério de seus olhos. Um dia eu os veria fechados para sempre.
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